Transliteração

Leila Dumaresq

Por que os corpos pensam viver como mentes? Imaginam que permanecem. Deliram que perduram. Ensurdecem por medo da mudança. Eu gritava minhas diferenças entre os corações surdos e ninguém ouvia. Não sabia quem era e também não era a determinação que me impunham.

Sonhava com o dia no qual seria uma pessoa inteira. Faltava-me algo e chamava o vazio de amor. A dor era muito maior que isso: Faltava-me ser-gente. Imaginei que alguém pudesse suprir esta falta. Tal pessoa não veio de todas as formas possíveis. Umas lindas, outras tristes. Umas boas, outras não. Todas trágicas, sempre dor. Pois o sonho de saber a verdade e permanecer na felicidade me torturavam como demônios. Confundiam-me. Só o amor que não é sonho ouve a vida chamando.

E a vida chama para a mudança. O chamado é chama que ilumina o sentido das palavras. Então o corpo move-se, marcha e avança para a mudança. Assim começou todo o movimento. Transformação. Transição. Não que faltem verbos, mas como chamar a origem de toda a ação? Ensinaram-me que só percebo as mudanças no movimento. Acredito porque só senti quando abracei a mudança.

Sentindo tornou-se possível pensar: A letrada entende o significado das palavras; A sábia liberta-se do significado das palavras; A poetiza liberta as palavras dos seus significados; A filosofa liberta-se dos significados para reencontrar-se com a vida.

A mudança é o grande ato de entrega ao amor. Amando, enfim descobri minha alma! Finalmente encontrei o gênero ao qual pertenço na parte mais colorida do meu corpo! E é colorido tudo o que é vivo.

É certo aceitar a vida, abandonar todo o sedentarismo existencial. É certo deixar o corpo viver e ser o instrumento de uma alma passageira. Que minhas palavras cantem meu amor e que meu corpo seja a transliteração de toda esta canção para a vida.

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