Pão de Queijo na Unicamp

Leila Dumaresq

Comi um pão de queijo quentinho em uma noite bem fria. Então lembrei-me do tempo no qual saía de casa às 5:45 para pegar o ônibus em Vinhedo e estar na Unicamp às 7:40. Ainda tenho palpitações ao lembrar quão ineficiente e extorsivo é o transporte público da minha região. Naquele momento o ódio rodoviário durou pouco, pois crescia em mim uma ternura. Sabe como são estes sentimentos delicados: Crescem devagar, sem assustar, sem dominar, mas conquistam apenas com fascínio.

Recordei daquelas manhãs. Chegava à cantina do Marcão e esperava pelo pão de queijo de R$ 0,80. Também tomava com o café coado self-service de R$ 0,10. Não era o melhor atendimento, não era nem boa a comida e a bebida. Paladares mais refinados, revoltem-se com tanto amor por comida ruim! Contudo, não era o valor gastronômico ou erário que contava. Esquentar e animar quem iria enfrentar um dia de estudos também é amor. Fazê-lo não só ao gosto e aos bolsos dos pós-doutorandos e professores, mas também para os graduandos falidos é um gesto de altruísmo.

Hoje há estudantes na Unicamp que nunca ouviram falar da cantina do Marcão. Ficava no Instituto de Matemática. Esta cantina foi fechada por causa da fria burocracia normatizante. A nova regra de licitações pode até trazer ordem e progresso ao campus. Só não pode fechar o estabelecimento da minha memória.

Tenho certeza que pedacinhos daqueles momentos estão para sempre no meu coração. Certeza idêntica à de um diagnóstico médico: Estão lá na forma de placas de colesterol dos pães de queijo e steaks de frango. Coladas às minhas artérias, assim como a ternura daqueles tempos está colada às lembranças.

Não sei bem o que tornou aqueles tempos tão bons e por este motivo chamo de ‘ternura’ este sentimento. Só sei que não trocaria os anos de café com pão de queijo e filosofia na companhia dos meus colegas e amigos por nada.

O mais importante é perceber que do pouco que pude escolher na vida, escolhi aprender alguma coisa que me causasse ternura e amor no coração.

mais textos em transliteracao.com.br

Gostou do texto? Divulgue entre os seus amigos! Obrigada!
no facebook          |          no google+

Deixe uma resposta