Sobre as batalhas da vida

A fé na vitória tem que ser inabalável.– O Rappa

Eu entrei no mestrado em agosto de 2010, naquela época minha aparência ainda era lida como a de uma mulher masculina. Entrei no mestrado no mesmo ano que terminei a segunda graduação em Educação Física, fiz licenciatura e bacharel. Fui selecionado também para a primeira turma de uma Especialização em Gênero e Sexualidade, tudo ao mesmo tempo. Fiquei muito feliz, muito mesmo, com tudo que estava me acontecendo. Na Iniciação Científica, alguns professores já diziam que eu tinha que fazer pós graduação. Publiquei os meus dois TCCs: em uma revista eletrônica Argentina e outro em capítulo de livro.

Minha alegria muitas das vezes se confundia com uma angústia, que sentia e escondia de mim mesmo, não sabia o que fazer. Sabia que tinha algo de errado e que escondia de mim, mas não tinha coragem pra se quer assumir pra mim mesmo. Na verdade eu sabia o que era a algum tempo, mas evitava até pensar. O que descobri na graduação. Nessa entrevista eu falo mais sobre essa descoberta. Um dia comecei a me aproximar mais de pessoas trans e travestis e aí não teve mais jeito, eu tive que ver de perto. Na época eu sempre estava muito triste e pra baixo, autoestima muito ruim e não aguentava mais viver. Não dava conta da dor que eu sentia. Principalmente depois de ter conhecido e conversado com uma pessoa que me despertou que era possível o que eu apenas sonhava e imaginava. Essa pessoa era exatamente o que eu queria ser corporalmente. Aí eu resolvi procurar alguém, procurar ajuda. Foi nessa hora que o TransRevolução fez toda a diferença em minha vida.

Um dia, quando não estava mais aguentando viver. Sem saber o que fazer e disposto a dar fim a minha vida, resolvi ir a uma reunião do Grupo TransRevolução no Pela Vidda. Lá vi o João Nery a primeira vez, e o vi falar, quase todos os momentos relatados eram muito parecidos com o que eu também tinha vivenciado. Naquele dia, eu tive a certeza de que era um homem trans e não poderia mais viver de mentira.

Após a palestra do João abriram para falas. Depois de algumas pessoas falarem, pedi pra falar e disse tudo que estava engasgado dentro de mim. Mediando junto com a saudosa Giselle Meireles e Fernanda de Moraes estava Indianara Siqueira, que silenciou com o olhar a sala pra que eu continuasse a falar. E eu falei e falei… Disse tudo que estava aqui dentro. Aquela atitude salvou minha vida!

Desde aquele dia me senti acolhido e depois de uns meses decidi que ia começar o meu processo de adequação de gênero. Mas e a família, e os amigos e o MESTRADO…

Foi difícil, muito difícil. Conversei com as pessoas do mestrado. Ninguém entendia direito, mas também não falavam que não entendiam. Acho que queriam ver o que estava acontecendo, ver as mudanças ali naquele momento em que eu estava falando, para acreditar no que eu dizia, não sei. Expliquei que com o tempo iria mudar, que ia nascer pelos no rosto e que ia ficar cada vez mais masculino aparentemente, mais do que já era. Falei das portarias e dos decretos, mas como eu era aluno bolsista da própria instituição de ensino, fiquei receoso de perder a bolsa, ser expulso ou qualquer coisa que me fizesse ser desligado do programa caso eu insistisse muito. Eu pedia o uso do nome social. Mas, afinal de contas eu era ali uma pessoa trans negra bolsista, a primeira pessoa do meu núcleo familiar a estar no mestrado. Sozinho, no meio daquele monte de pessoas cis e brancas, não queria perder a bolsa e muito menos sair do mestrado.

Comecei a perder a vontade de ir a universidade. Minha depressão tomou conta de mim a ponto de me fazer travar pra escrever. A sorte é que nesse momento já estava mais da metade do mestrado. Já tinha ido a campo e feito as entrevistas, coletado o material. Isso foi em meados de 2012, quando teria que defender, tinha conseguido qualificar, mas e a defesa… Fiquei muito mal sem vontade de pisar naquele lugar. Ouvi que: “Só poderia ser tratado de Leonardo ou de qualquer outro nome a partir do dia que eu defendesse, até esse dia chegar seria o nome de registro. Que no dia seguinte após a minha defesa me chamariam do que eu quisesse, antes disso não”. Foi o que me fez ficar muito deprimido. Atrasei a minha defesa, por ter sofrido transfobia, por não aguentar sequer ir no município onde a universidade fica. Fui, a cada dia, minguando… Mas tirei forças não sei de onde e decidi que ia defender, mesmo pensando inúmeras vezes em desistir.

No dia da minha defesa eu estava de terno e gravata e fui chamado no feminino, na época pelo meu nome de registro, por quase todos da banca. Parecia uma brincadeira, eu me tratando no masculino e eles me tratando no feminino. Um show de horrores. Dos docentes apenas um usou uma nomenclatura neutra. Eu percebi isso. Teve um professor também, que foi sensível ao me levar num computador pra salvar o arquivo da apresentação que não quis abrir, pra testar em outro. Me chamou no masculino. Aquela atitude, também, me deu forças pra encarar tudo, me senti acolhido de alguma maneira.

Eu nem sei como eu consegui defender. Minha pesquisa era sobre Violência nas Aulas de Educação Física Escolar e eu ali sofrendo transfobia institucional…

Transfobia é um tipo de violência.

Hoje peguei o meu diploma. Pra muitos pode parecer nada, mas saber que recebi esse diploma, de mestrado com o meu nome é muito gratificante, é uma vitória! Duas vitórias. Primeiro por ter conseguido mesmo que a trancos e barrancos terminar, e segundo, por ter retificado o prenome e sexo nos documentos. Se eu não conseguisse talvez nem teria pego o diploma.

Algumas pessoas me perguntavam quando eu iria tentar o doutorado, que já estava na hora. Não queria passar novamente pelo que passei no mestrado. Afinal, eu já sou mestre desde 2013 e percebam, o meu diploma só saiu agora em 2016. Fiquei três anos esperando para dar entrada, porque não queria pegar com um nome que não era meu, que não condizia comigo, que não representava a minha identidade. Quem defendeu ali era o Leonardo, não era outra pessoa.

Agradeço a todas as pessoas que me ajudaram chegar até aqui, que me permitiram estar hoje relatando pra vocês esse privilégio que é ter esse diploma.

Estou falando tudo isso, pra motivar as pessoas trans, pra que elas saibam que universidade é lugar de travesti, de trans, de pessoas negras, de todas as pessoas!!!!

E pra você profissional de educação, tenha sensibilidade, faça jus à sua profissão, seja professor, seja educador. Não contribua para a angustia de pessoas. Tente entender, não trate como algo menor o que você desconhece. Não entende pergunte? Pesquise sobre o assunto. Seja aliado. Uma pessoa trans precisa de acolhimento, de respeito. Não deixe seus cargos falarem mais alto que você, seja humano e não naturalize a dor da outra pessoa.

Passei por isso e sei que é a realidade de muitas pessoas, infelizmente. Na escola, na graduação e que por motivos muito parecidos com os que citei aqui, as pessoas não terminam os estudos. E isso não é evasão escolar, é expulsão por não aceitação da diferença, por não bancarem e não darem conta de ajudar alguém diferente da maioria. Por preferir debochar da diferença do outro a ajudar que escola hoje é o ambiente onde o preconceito e a discriminação são mais naturalizados e isso tem levado pessoas a morte. Um suicídio que na verdade é assassinato. Um assassinato que toda a sociedade branca, cisgênera, heterossexual faz com as pessoas. É uma condenação à morte de tudo aquilo que foge de um padrão naturalizado e imposto.

Esse relato é para empoderar as pessoas, para que vejam como é possível. Não é fácil, tem dor, angústia. Eu só consegui terminar porque encontrei pessoas como eu no caminho. Elas me deram força. Além da minha família, meus pares políticos, que hoje muitos são amigos, que na dor entendiam o que eu passava e se solidarizavam.

Hoje eu não quero nunca mais sentir o que senti. Decidi que agora estou pronto pra continuar e que vou em frente!

Agora além da titulação, estou com o diploma em mãos! Mestre em Ciências da Atividade Física!

Acredito ser o primeiro homem trans negro, Mestre na área de Educação Física!

Tenho muito o que viver e isso é só o início!

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1 comment

  • bemjamimbraga

    Coisa mais linda de se ver! Parabéns meu amigo por mais essa vitória! Você merece e muito. Todos os lugares são nossos, chega de massacre! Saiu uma reportagem esses dias falando sobre o aumento do número de estudantes negros/negras em nossas universidades. É isso aí! A educação do nosso país sempre deveria ter sido para todos e todas nós, e não somente de uma elite branca, rica, cis e heterossexual. Avante, Léo. Voe alto. Bjs

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