Ver em vinte e nove do um

Toda travesti sabe que não basta viver do nome que deram, nem do comportamento que ensinaram, não servem as roupas que vestiram, assim como não servem as qualidades que atribuíram. É que a serventia de tudo isso não está em sua suposta verdade, mas no que delas se pode fazer.

Para uns, o que leva além é afirmar nome, jeitos, vestir e desejar. Mas há também quem só vá além negando… Ou melhor: Quem, como todos, só vá além não se negando no modo de expressar amor, afeto, carinho, desejo…

Como ensinava Paulo Freire, se a educação que nos deram fosse emancipatória, todos nos sentiríamos livres para sermos mais humanos. É desta necessidade de humanizar-se – e não de qualquer outra – que se trata o desabrochar travesti. E porque não há liberdade em nossa sociedade, esta necessidade é perigosa: Pois quem humaniza-se sabe que tem o poder de humanizar.

Aquilo que chamam ‘liberdade’ nos é imposta como a necessidade do “menos pior”. Somos obrigados todos os dias a sentir mais medo que esperança. Dos noticiários policialescos às crises econômicas, tudo é feito para que tenhamos muito ódio, muito medo e nenhuma esperança. Traçam em todos nós uma linha imaginária e nos dizem que lá está tudo de ruim e do lado de cá a segurança de saber que as coisas, embora mudem, são sempre as mesmas.

Não importa que não se faça mal a ninguém, nem toda a empatia, simpatia e serventia que a pessoa tenha. Quem encontrou algo bom no “lado de lá” não pode voltar.

Quem volta, condenam pelo mesmo motivo que não matam: Para manter a mentira que vivemos de indiferença, quando na verdade é de medo que sobrevivemos. Não se pode perceber que a linha imaginária foi feita para nos manter dentro dela.

Então deixam viver, mas as agressões e violências não permitem que se conviva com quem trouxe alguma coisa boa de lá. Fazem parecer que é ódio, ignorância ou maldição. Tudo para não revelar que eles lutam odiosamente para manter a reputação da linha que traçaram. A única alternativa que resta é viver longe, mas a distância física não protege ninguém da desumanização, desamparo ou vulnerabilidade.

O pior, é que o plano dos opressores não termina com a expulsão. É longe dos olhos e das consciências que pretendem matar seus rebeldes.

Não só para tirar a vida, mas para tomar de volta o nome, os pronomes, o gênero, as expectativas, o comportamento e as qualidades que deram a cada um que nasceu e nasce. Eles tomam tudo o que lhes pertence de volta, pois a opressão sempre lhes pertenceu, e noticiam o fim de uma vida como se não tivesse sido a vida de uma travesti. E o fazem para que todos pensem que não se pode viver sem os atributos que eles nos dão.

Todavia, tudo o que fazem é mostrar os farrapos vazios de suas mentiras. Falam do que quiseram fazer da travesti para esconder que ela não aceitou o destino que impuseram. Todos sabem, do silêncio da consciência calada, que a travesti viveu sua própria vida. Algo que poucos ousam fazer.

Nossa vida. Nosso corpo. Nossa dor. Nosso prazer. Nosso tempo. Nossa palavra. Nosso amor. Nosso cuidado. Nosso cultivo. Nosso fazer. Nosso trabalho. Nossa humanidade.

Um dia devemos lembrar que só estamos vivos em nossa própria história, pois nunca existiu vida nos registros oficiais e oficiosos dos capatazes. Eles apenas mentem desde o momento que nascemos até depois da nossa morte para que não se desperte para a própria vida enquanto se vive.

Toda travesti sabe e elas me ensinaram a valorizar mais a vida e as vidas ao redor e deixar as mentiras, todas elas, para os opressores.

A resistência travesti humaniza a vida.

Você vê o amor?


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