A carta vice-presidencial

Temer escreveu uma carta para Dilma.

Em uma situação delicada para o país, o vice-presidente escreve uma carta à presidenta da república cobrando dela “reconhecimento” por seu papel como vice-presidente. Ele mesmo diz que o vice-presidente deve ser discreto, mas comete uma indiscrição apenas para fazer sua reclamação de que não teve “influência” no governo passar por “reconhecimento”. Não houve nenhuma reclamação ou queixa a respeito da situação política, social ou econômica do país e tão pouco à condução do poder executivo.

Seria um texto ridículo se não fosse o Brasil: um país caracterizado justamente pelo tráfico de influência em torno dos cargos executivos. Seria um erro crasso publicá-lo se não fosse um político brasileiro: tão despreocupado com a história política do país que não vê o papel escolheu para si se compararmos este processo de impeachment com o último.

Todavia, o vice-presidente não escreveu para a história política da nação. Sinto ao ler que a carta foi escrita também do PMDB para o PT. Pois há algo mais PMDBista que reduzir – a ponto de tomar como sinônimos – questões de estado à questões de influência e consideração pessoal?

O projeto político do PT nas presidências dos últimos 13 anos foi construir um pacto social que unisse as elites “progressistas” ao povo organizado. O desenvolvimentismo foi a proposta deste pacto: Quem era rico ficaria mais rico ainda e quem era pobre deixaria de ser pobre. Pessoalmente, faz sentido, pois é preciso pouco dinheiro para acabar com toda a pobreza se compararmos ele à riqueza dos muito ricos.

O PT realmente aproximou os extremos sociais e não foi pouca coisa tirar o país do mapa da fome. Todavia, o Partido dos Trabalhadores presumiu que existe no país alguma elite estabelecida que se beneficie de um país mais igual e democrático. Não notou que todos os que se beneficiaram do país até então, beneficiaram-se da extrema desigualdade.

Contudo, o PT tomou esta premissa como verdadeira e partiu para articular as “forças progressistas” em torno de si. Mas, para tanto, era necessário “isolar” as dissidências e os menos moderados de ambos os lados. Neste momento o foco do PT saiu na articulação com as bases e passou à política de gabinetes. O partido “articulou-se” com Sarney, Collor, Eike Batista, Kátia Abreu e quem mais com influência econômica ou política que “apoiasse” o projeto de desenvolvimento da nação. Pelo menos no instante.

Mas o processo de “desenvolvimento” ocorreu calando as vozes que apontavam as contradições enquanto setores da direita se fortaleciam no ambiente de prosperidade e de diálogo. De fato, seria difícil este desenvolvimento por si só resolver contradições históricas tão profundas e constitutivas do nosso país. Elas mantiveram-se pelo processo, alimentando-se dele apesar das melhoras reais.

Como consequência deste processo, o PT conseguiu dividir sua base e produziu dissidências quando até então sua força vinha da união. A esquerda que surgiu desta mudança dificilmente reconhecerá este PT como capaz de unir todos novamente. Os movimentos sociais que foram deixados de lado para promover “desenvolvimento”, também desconfiam demais do PT. Especialmente depois da sua infame lei contra o “terrorismo”.

Agora Temer joga na cara do PT presidencial que ele não conseguiu conquistar uma elite para chamar de sua nestes 13 anos. Que o PT é e sempre será um estranho no ninho das elites políticas que herdaram o país da ditadura militar. Pior, Temer está dizendo que o Partido dos Trabalhadores fez mal “seu trabalho,” pois pecou no oposto do PSDB:

Pois enquanto o PSDB erra ao menosprezar o povo e assim escancarar para a população os privilégios da elite (como recentemente aconteceu em São Paulo), o PT peca justamente por levar a “sério demais” a constituição de 1988 e tentar modernizar institucionalmente o país, permitindo que a população tenha um mínimo de cidadania (como tentar tornar a capital de São Paulo um lugar transitável por pessoas que não vão de casa para o trabalho em helicópteros).

Mas a carta não foi escrita do PMDB para o PT. Não, ela foi escrita por Temer, que pretende-se a voz do PMDB. De tal modo que ele não escreveu isto apenas para Dilma e para o PT presidencial, ele nada ganharia espinafrando a presidenta. Ele também escreveu esta carta para seus correligionários do PMDB. Na carta, Temer se mostra um homem que reconhece quem foi eleito com a ajuda de quem, que tem este peculiar senso de justiça e torna o reconhecimento particular em influência “nas decisões”.

Assim sendo, já temos a primeira promessa de campanha do pré-presidente Temer: Governar para os PMDBistas de acordo com a influência política de cada um para que possam levar adiante seus projetos políticos individuais. Também, é uma visão da política centrada no poder e não na representatividade da população. Este é o PMDB por ele mesmo, sem o filtro do neoliberalismo do PSDB ou do desenvolvimentismo do PT.

Como em um debate presidencial, Temer não está falando para seu oponente, mas para o “eleitor” (no caso, nas pessoas que decidirão se ele tomará posse ou não). Porém, à luz da história recente e da análise crítica do texto, como ele é fundamental para entender a relação entre PT e PMDB nos últimos 13 anos. Porque escancara para nós a sórdida contradição e a impossível conciliação entre o governismo fisiologista do PMDB e o desenvolvimentismo social do PT.

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