Aos mestres do Paraná com amor: A ciência humana

É triste ouvir pais me perguntando porque seus filhos agem como se não houvesse futuro. Eu, eles e seus filhos fomos educados no medo da verdade, no pavor da empatia com quem sofre, no terror de questionar o status quo. Fomos todos educados para tentar “nos dar bem”; Ainda que o sistema seja injusto, temos que fazê-lo funcionar. E fazemos isso porque ser excluído nunca é uma alternativa, eu bem sei. Então competimos e agradamos os patrões, alguns sonham até em ser quem “dá emprego”, ainda que isso signifique dar empregos precários, como as “famílias de bem” sempre fizeram questão de dar às suas empregadas domésticas. É assim que naturalizamos nossa vida em uma sociedade arbitrária e, consequentemente, abusiva.

Creio que estes filhos estão certos. Não há futuro para quem deseja ficar quieto. Há sobrevivência, não vida. Algo já deu errado e não se pode ao menos falar que há um problema.

Que fazer quando se tem um medo justificado de buscar uma perspectiva melhor de futuro? Vive-se o agora; Queima-o de uma vez. É isso que os jovens já estão fazendo, pois o futuro para eles é tão pesado quanto o passado para os mais velhos. Se os velhos vivem de experiências passadas, os jovens vivem de perspectivas e expectativas. E ninguém consegue lhes mostrar um futuro decente. Se dentro das famílias os pais dão duro para que os filhos tenham tudo, o que há na sociedade para eles? Os jovens estão preparadíssimos, mas para que?

O problema está no que estão ouvindo. Então que sigamos os sons:

Estes jovens estão perdidos num silêncio desesperado. Há um grito abafado neste silêncio. É coisa de desumanização; e assim sendo só pode remeter ao que é desumano: Como é um grito abafado no silêncio?

Pense no barulho de um refrigerador de mercado: Por trás desse “silêncio” ouve-se o mugido de gado no abatedouro; Ou, pense que agora não haverá mais rotulagem de produtos transgênicos no mercado (e quase tudo tem) Por trás deste vazio há o barulho da comida sendo pulverizada com agrotóxico cancerígeno em excesso. E por trás de um trabalhador que trabalha sem reclamar e sem direitos, há o choro de um ser humano não consegue uma vida digna na sociedade em que trabalha.

E como chegamos a este ponto? Eu realmente acredito que todos somos humanos ou deveríamos ser. Acredito que só é sociedade, civilização, humanidade, se for um arranjo social que nos humanize a todos. Por isso digo que estamos desumanizados, pois afirmo que nascemos humanos. A partir daí vem a necessidade de sermos humanizados ao longo da vida. E também a triste verdade, que hoje, sobrevivemos sendo desumanizados.

Nosso grande problema é que não resta mais natureza nenhuma. Não há mais natureza abundante para ser feita humana. Não há espaço. Não faltam mercadorias, mas faltam direitos. Nos querem vivos, mas não nos querem humanos, esta é a verdade.

Este arrranjo nos faz não muito diferentes do gado dos pecuaristas ou a soja dos latifundiários. Se não há direitos trabalhistas, não há um trabalhador igual a quem dá o trabalho. Em bom português, quer dizer que seu trabalho não vale nada por si, só quando ele pertence um ser humano e é sua justa participação na sociedade. Então, quando não há direitos de quem trabalha, não importa a quantidade nem a qualidade de trabalho que a pessoa consiga “produzir”. Aquilo já não vale um futuro, uma vida.

Quem hoje “faz” e “” os trabalhos, não os está fazendo para garantirem vida e futuro dignos, exatamente como essa carne em sua mesa é feita com água roubada e pasto grilado, alimentos transgênicos são feitos com pesticidas e agrotóxicos cancerígenos em excesso, sua água vem por encanamentos precários e é mal cuidada, assim também o seu trabalho é feito para não lhe prover sustento com dignidade.

Tudo faz mal, inclusive seu trabalho, mas você faz de conta que está tudo bem porque há um trabalho como há estas mercadorias nas estantes do seu mercado. Então, este pedido de ajuda, de uma pessoa a quem só resta trabalho, comida, moradia precários, é um grito de alguém desumanizado. Todas as coisas que citei têm o timbre da desumanização.

Mas ainda ouve-se gritos humanos. Índios estão gritando assim como as mães de crianças negras assassinadas pelo estado nas favelas ou as travestis negras presas e espancadas nas cadeias. Também estão gritando os professores estaduais do Paraná.

Estes são sons humanos. Eles gritam para humanizar-se e também humanizar a mim, aos pais, filhos e a todos os brasileiros. Todos que deveriam viver numa sociedade humana. E tudo acaba humanizado, pois a humanidade não começa e termina em corpos humanos. Uma sociedade que humaniza humanizará todo o espaço geográfico, ou seja, tudo.

Hoje, ao menos, temos o registro vívido da condição humana em palavras, imagem e som. Gostaria que as pessoas tomassem consciência da humanidade naqueles rostos ensanguentados, naqueles choros e gritos de revolta e luta.

Não importa quão pouco reste de natureza, sempre poderá ser humanizada, mas tudo pode piorar: Quando estes gritos forem calados não haverá mais humanização seja lá do for. Neste silêncio, o próprio futuro será um sonho, destes loucos demais, daqueles que não se conta para ninguém. Na realidade política valerá a lei do mais forte e para quem não tiver poder restará a autofagia.

E a única solução que eu tenho para os jovens que estão vivendo como se não houvesse amanhã é que ouçam com atenção os gritos humanos que ainda restam. Talvez sejam os últimos que vão ouvir, mas lhes fará bem à alma. Eu sei que eles já ecoam lá.

A humanidade que deveria ser sempre gritará nos silêncios opressores.


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1 comment

  • aoachilles

    O texto soa como se as pessoas buscassem humanizar-se em uma sociedade desumana, enquanto não é verdade. A sociedade está atônita e sem norte, pois sua humanidade está sendo retirada, ou modificada, pois o pensamento politicamente correto dos que ainda pensam não alcança profundidade (e isso é proposital), por terem sido vítimas de pseudo-norteamento.
    Se faz necessário observar de dentro para fora, buscando ver o comportamento como alvo, como objetivo de transformação. Não se translitera pessoas, mas é isto que está sendo feito, as pessoas estão sendo modificas literalmente, de pessoas para não pessoas, ou seja, suas personalidades estão sendo reconstruídas passo a passo, de acordo com já formada “persona”, aproveitando-se o ponto de partida de cada uma, o interesse por determinada vertente de atuação, seja qual for.
    Se os jovens, em sua maioria, não buscam uma “vertente”, há um motivo induzido, uma programação, um redirecionamento planejado para a reconstrução de um novo mundo, no qual as pessoas oriundas desses jovens sejam simples títeres, sem pensar e sem objetivos.
    Bem, trata-se de apenas um comentário, o problema é grande, o comentário surge insignificante.

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